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quarta-feira, 9 de maio de 2012

Da razão

Estavam lá, voltando de alguma aula, as meninas da turma. Nina e Maria conversam sobre algum assunto, e Nina fala: "é, Maria, você tem razão." A Maria na mesma hora rebate, quase chorando:

"Não, eu não tenho razão! Eu não quero ter isso!!!"

Clara, que tava do lado, percebe logo que se trata de alguma coisa muito ruim, e se junta ao coro:

"Eu também não tenho isso, não quero ter isso de razão!"

A gente meio que ri, meio que se surpreende, meio que segue com o resto da turma pra ninguém se perder no caminho. Aí a gente chega na sala, muda de assunto, lava as mãos pra comer frutinha, e a Clara vem falar pra Maria, debochada:

"Você tem razão-ão...!"

~

E né. Que bom seria não querer ter isso, não. Razão? Eca. Passo, obrigada. Longe de mim querer ter razão. Longe de mim pensar em ter esse negócio aí.

Eu sempre fico me perguntando, quando eu to com as crianças, que horas que se quebra essa sabedoria. Eu sei, eu sei que não dá pra gente marcar a hora, e falar "foi ali, com X anos, Y meses e Z dias, na hora do almoço. Quebrou ali." Mas alguma hora ela quebra, nem que seja aos poucos. Alguma hora a gente aprende que ter razão é bom. Que é importante. Que vai deixar a gente feliz e de bem com tudo.

E aí a gente se contorce e retorce. Briga, discute, argumenta, conversa. Pesquisa, estuda, lê, escreve. Fala que entende o mundo. Só pra ter razão, pra gente achar que tá certa, e as pessoas saberem e reconhecerem que a gente tá certa mesmo, ó que bonita a gente. E a gente tenta se convencer de que a gente não só tem razão, como a gente não pode viver sem ela. "Nunca, nunquinha!"

E de repente essa razão vira nossa meta, nosso caminho e ai, que canseira dessa razão...

terça-feira, 17 de abril de 2012

rabiscos

a novidade da semana é um gesso no braço direito, bem chato (e pré-histórico, segundo me disseram) que me impede de fazer algumas coisas pequenas, daquelas do dia-a-dia que passam despercebidas até vc ter um grande desafio para fazê-las - como digitar essas algumas palavras.

e, bom, tem sei lá, 24h que to de gesso, e o que mais to sentindo falta é de escrever. não é de digitar, vejam bem, é de escrever mesmo. lápis e papel, minha letra ora pequena, ora torta, ora capricho. lembretes, desabafos, ideias, compromissos, observações de falas interessantes, uma poesia inspiradora na parede que eu queria no caderno. um telefone, uma música que não sai da cebça, uma lista de compras ou afazeres... que saudade.

eu nem sabia que escrevia tanto assim, e que escrever era assim uma parte tão grande de mim...

e aí pensando nisso eu lembrei de um texto do eduardo galeano que uma colega leu na aula inspiradora de quinta passada:

"Celebração de bodas da razão com o coração

Para que a gente escreve, se não é para juntar nossos pedacinhos? Desde que entramos na escola ou na igreja, a educação nos esquarteja: nos ensina a divorciar a alma do corpo e a razão do coração.

Sábios doutores de Ética e Moral serão os pescadores das costas colombianas, que inventaram a palavra sentipensador para definir a linguagem que diz a verdade."

ps: esse continho tá no (lindo) livro dos abraços
ps2: depois conto duas histórias engraçadas envolvendo o gesso e uma ida ao mercado
ps3: me lembrem também de contar da coincidência que aconteceu na aula inspiradora de quinta, envolvendo o galeano

domingo, 25 de março de 2012

niños

tem umas coisas que, a princípio, deixam a gente agoniada, desesperada, sem saber o que fazer. e depois, com o tempo, a gente tira de letra. trabalhando com crianças tive vários desses momentos.

a primeira vez que troquei uma fralda {muito} suja, por exemplo, tive um faniquito. segurei a respiração, fiz cara de dó e nojo, me perguntei como, meo deos, COMO um serzinho daquele tamaninho podia fazer uma caca tão grande. depois de um tempo, você meio que des-sensibiliza. tá, continua fedido e tudo mais, mas a reação é bem menor - assim como o tempo que a gente leva pra trocar.

outra coisa é choro de manha. vou deixar bem claro: choro de dor, choro de "minha mãe me deixou aqui e eu não sei se ela voltar", choro sentido mesmo, me fazem mover montanhas pra confortar o pequeno (ou pequena). mas choro de manha, daquele "eu queeeroooo, agora!", não fazem mais nem cosquinha nos meus ouvidos.

lembro na minha primeira semana como professora: uma menininha linda teve um ataque porque outra criança tava brincando com o brinquedo que ela queria. se jogou no chão, gritava, chorava, um drama. eu fiquei petrificada. tadinha dela! o choro me doía no fundo, parecia que ela ia ter um troço. nem lembro agora como lidei com a situação, mas sei que hoje, 4 anos depois, estou praticamente imune a choro de birra.

ano passado retrasado, na escola nova, eu e as outras duas professoras tínhamos a sorte de compartilhar esse dom. um começava a chorar de birra e a gente calmamente falava: "eu não entendo quando você chora, só entendo palavras." e seguíamos com a vida, a rotina e a aula. funcionou tanto que pouco tempo depois, diante de uma birra digna de Oscar de um dos meninos, uma outra aluna se aproximou e disse pra ele: "choro aqui não adianta."

mas mesmo acostumando com coisas que parecem impossíveis de não incomodar, tem certas coisas que não perdem o encanto e a sensibilidade nunca. abraços apertados, desenhos feitos especialmente pra gente, o olhar de alegria quando eles aprendem uma coisa nova, as risadas brincando de pique-pega no parquinho, o interesse nas formiguinhas, lagartas, pássaros, joaninhas;e tantas outras pequenas coisas que fazem tudo, tudinho valer a pena...

não se deixe enganar pelas carinhas. they have loud screams and they're not afraid of using them. ;)




{texto escrito no começo (ou meio?) de 2011, perdido por aqui nos rascunhos}

quinta-feira, 15 de março de 2012

Conflitos

Uma das reações mais comuns quando duas crianças tem algum conflito é o adulto soltar um "pede desculpas!" logo de cara. A criança vai, olha pro teto, fala "desculpa" como quem mata um mosquito sem ver e pronto, a vida segue seu rumo.

Mas aí tem uma coisa que acaba acontecendo que eu não gosto muito - a desculpa vira automática, e álibi perfeito pra tudo. Tá lá o menino andando, empurra o outro de implicância; o empurrado chora, reclama; o empurrão olha pra professora e fala logo um "Desculpa!", enquanto continua andando e empurra o próximo.

Pois bem. Comigo não, tenho outra tática.

A ideia não é minha, claro. Vi outras professoras fazendo, e funcionando, e acho que vem da dona Maria Montessori (pausa pro suspiro de fã). Vou contar um caso que aconteceu ano passado, que ilustra bem o exemplo.

Duas meninas brigam por algum motivo. Uma delas sai de braços cruzados, cara fechada, passos largos e rápidos, furiosa indo embora do parquinho. A outra vem atrás e imita a postura. Duas carrancas, bem fechadas. Eu sento com elas e pergunto o que aconteceu.

Menina A: "Eu to muito chata (chateada) com a B! Ela pisou no meu sapato e ele saiu! To muito brava!"

Menina B: "Eu também to muito brava! Ela não me esperou pra ir no escorregador! E foi sem querer que eu pisei no sapato!"

(as caras de brava continuam, com os braços cruzados)

Professora (eu): "Então as duas tão muito bravas... e agora? O que vocês acham que a gente pode fazer pra resolver isso?"

Menina B (abrindo um sorriso): "Ah! Dar um abraço!!!"

E as duas se abraçam, felizes. Sobra um abraço até pra mim (oba!) e o dia é salvo. Por elas mesmas. E sem desculpas.

terça-feira, 13 de março de 2012

Aprendendo Thai - lição 2

Relendo algumas coisas no blog achei uma primeira aula de tailandês aqui, em que eu prometia próximos capítulos.

Bom. 2 anos e meio depois (haha), eu volto pra terminar a aula. Tinha prometido: ensinar a falar rio (ainda lembro); a lombra dos presidiários (tenho uma vaga ideia, mas nem sei mais como fala presidiário...); e a facilidade de saber os cômodos da casa (esse é fácil mesmo, 2 anos sem thai e eu lembro).

Papel e caneta na mão? Cara de quem liga muito pra isso pronta?
Vamos lá!

Rio se fala meé náam (แม่น้ำ) - meé é mãe; e náam é água. Ó que bonito, o rio é a mãe das águas. Lembro que adorei quando aprendi isso, tão simples e delicado... eu gosto.

Pulemos a parte dos presidiários (quem sabe daqui mais 2 anos eu volto e conto? A esperança é a última que morre...), e vamos pro cômodos da casa. Super fácil!

Em tailandês, cômodo se fala hóong (ห้อง). Pra cada lugar da casa, então, você vai colocar a palavra ห้อง (hóong) na frente, e depois a ação que você faz no lugar, ou o que encontra lá.

Quarto é hóong noom (ห้องนอน). Noom é dormir - mas vocês já tinham adivinhado, né?

Sala de jantar é hóong ahan (ห้องอาหาร). Ahan é comida - sala da comida.

Sala de estar é legal, porque traz uma palavra bem importante pros tailandeses. Se fala hóong nang lên. (ห้องนั่งเล่น) Nang é sentar, e lên é brincar. Sério, a lição 3 vai ser só sobre o uso do lên เล่น, é muito muito legal.

E banheiro é hóong náam (ห้องน้ำ). E náam já aprendemos hoje, só olhar ali em cima. ;)

O único detalhe que falta pras aulas é a diferença dos tons (são 5), mas isso só com vídeo e áudio não tem jeito, então usem a imaginação!

Daqui 5 anos teremos: a magia do lên เล่น e, quem sabe, a tal lombra dos presidiários. Não percam!

segunda-feira, 12 de março de 2012

círculo

desde semana passada que tenho pensado muito no que é ser mulher. na força que isso tem. e pela primeira vez me senti muito conectada a todas as outras mulheres do mundo... uma ligação sem muita explicação, mas boa de ser sentida.

e aí lembrei de um texto curto que escrevi um tempo atrás:


nisso tudo, as amigas me salvam. é como se elas fossem salva-vidas, me puxando do redemoinho quando eu acho que vou afogar.

elas me tiram do mar brabo, me colocam na areia, me ajudam a respirar e me dão carinho e apoio.

elas são como anjos da guarda, cuidando de mim. me olhando com ternura e compreensão, criando uma rede mágica que me ampara e me protege. e eu sou tão grata a elas...



obrigada, mulheres lindas e fortes da minha vida!

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

A insuportabilidade do ser

Tem uma amiga minha, a Carol, que dá tilt quando tem alguma coisa muito fofa, linda, gostosa por perto. Sabe, quando uma criança faz questão de fazer uma gracinha tão tão bonitinha e esperta que dá vontade de apertar e esmagar? Então. Quando tem uma situação delas, a Carol descreve como insuportável. É tão incrível, que você não consegue aguentar. Que você precisa morder. Apertar a bochecha, o braço, abraçar forte e falar "aaaah, não!" É assim que é ser insuportável.

Pois aí que outro dia, na conversa via skype que contei, com o Kii, tive um belo exemplo dessa insuportabilidade toda.

Lá está ele, na frente do computador, com 8 anos, falando comigo. A mãe dele é uma grande amiga lá de Ithaca, e eu e ele éramos bem próximo; eu ia pra casa dele e a gente desenhava junto, brincava, jantava, era uma farra só. E tem mais de dois anos que não vejo ele, morro de saudade. Mas voltando à história.

Tava ele lá, mostrando a janelinha do dente caído e contando que gosta sim da escola. Eu pergunto se ele ainda desenha, se ainda gosta. A resposta?
"Yep. I have some new masterpieces. Do you want me to show them to you?"

Masterpieces. MASTERPIECES. Gente.

Ele tem novas obras primas.

Eu não dou conta. Eu dei um cataploft pra trás. Twist duplo carpado mega plus de tanto derreter. Parou meu coração, é demais pra aguentar.

Agora durma com esse barulho: ele tem novas obras primas.

Tsá?

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Boipeba

o lugar é um sonho. ou, pelo menos, o meu sonho. na hora que cheguei, reconheci logo de cara. "opa, é aqui", pensei. é bem assim mesmo o lugar que sempre sonhei, tem essas cores e cheiros, e parece até que as mesmas estrelas - inclusive as cadentes.

é até clichê ficar descrevendo o céu estrelado, o sol lindo todo dia, a brisa do mar e {insira seu clichê de paraíso aqui}. água de coco gelada, paisagens de tirar o fôlego, café da manhã delícia, comidas sempre boas, rede... tava tudo ali. até um encontro bom e muito inesperado com pessoas queridas teve!

no primeiro jantar, um restaurante simpático na vila. pra esperar a comida, o garçom traz um joguinho de dominó. dominó, minha gente! achei de um acolhimento sem fim, que ideia boa. e tudo parecia assim, pronto pra aconchegar, pra deixar a gente à vontade.

as palavras pra resumir são, de novo, clichês. mas às vezes acontece isso mesmo na vida, né?! da gente passar dias que encaixam tão bem na gente que tudo que podemos fazer é rir. dias que os problemas todos evaporam, até a própria palavra, "problema", perder o sentido.

um lugar que tem sua própria trilha sonora*. que deixou uma marca tão grande que, mais de mês depois, é presença constante ainda. que tem suas próprias palavras e vocabulários, e arrepios e inspirações. e que ainda vai me ver de volta um dia. vários dias.

*essa música aqui traduz perfeitamente o que foi o tempo lá. per-fei-ta-men-te. ;)

Dia Mundial* de Lembrar de Ithaca

* mundial, no caso, se refere exclusivamente ao meu mundo.


Tudo começou com um sonho bem vívido. Era noite e eu estava dentro de um ônibus, sem saber muito bem o destino dele. Eu tava bem agasalhada e com um gorro preto, que depois eu viria a perder. De repente, o ônibus chega. Em Ithaca, claro. Eu desço do ônibus super feliz, sem o gorro, e fico olhando ao redor, lembrando dos prédios de Cornell e reconhecendo o lugar tão familiar. Quase não me aguento de felicidade, e pergunto pro Marcel: "você pegou o endereço da nossa casa? É pra que lado?"
E saímos andando, felizes da vida, carregando surpreendemente poucas malas, e rindo muito ao lembrar de histórias passadas.


Corta então pra noite, na vida real, e uma ligação no skype. Conversei um bom tempo com a Uniit e o Kii, filho dela de 8 anos (que vai aparecer aqui de novo já já). Fiquei sabendo que ela voltou a dançar, que passou no mestrado também, que o Kii já perdeu 4 dentes, está com outros 7 moles e que já está na 2a. série. Só não esmaguei o computador porque né. Computador não é tão bom de abraçar.



Logo depois, um post no facebook: uma amiga está indo pra Ithaca no fim do mês. Ofereço dicas de coisas pra ela fazer lá, pensando ingenuamente que vou escrever isso lá pro meio da semana. Ledo engano... era o dia de lembrar de Ithaca, então obviamente começo a escrever na mesma hora. Pensando nos lugares que gostava de ir. Os momentos bons que vivi em cada lugar. As pessoas que estavam comigo. As visitas que recebemos. As sensações, os aprendizados.

E aí fiquei assim. Com um sorriso imenso no rosto, feliz de ter tanta coisa pra lembrar. E com uma saudade grande, mas boa de se ter.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Faça você mesmo

Desde que mudamos pro apartamento atual, 1 ano atrás, essa estante de caixas é nosso grande xodó - e das visitas também, que adoram! São baratas, práticas e multi-uso - começaram a labuta na cozinha, antes dos armários chegarem; migraram pra sala, onde guardaram mimos e enfeites, e agora estão também no escritório, com livros e bagunça.

Quer aprender a fazer também? Simbora!

1. A primeira coisa é ir até o CEASA mais próximo e pedir pra alguém umas caixas de madeira. Aqui em Brasília nos cobraram 5 reais por caixa (sempre bom contribuir pra cerveja da galera, hein?!). Pegamos 6 caixas, colocamos com algum esforço no carro e...

2. Com as caixas em mãos, é bom fazer duas coisas de preparação: ver se todos os pregos estão no lugar, martelando os que não estão pras caixas ficarem firmes, e passar um pano pra limpar as caixas também.




3. Depois disso, a etapa poeirenta: lixar bem as caixas! Isso serve mais pra tirar as farpas e pra esfolar os dedos. É gentileza usar uma luva, trust me.

4. Por fim (mas já?!), um verniz da sua escolha! A gente usou um cor "mogno", mas tem um mooonte, de várias marcas e cores, inclusive um natural que deixa a madeira da cor que é. Também dá pra pintar com outras cores, com algum tinta específica (dá muito bem pra arriscar uma tinta acrílica, mas aí não garanto a qualidade do produto!)
Pra pintar as 6 caixas usamos 1 lata e meia de verniz. E o pincel funcionou bem melhor que aquele rolinho de pintura, #ficaadica É bom: fazer em um lugar arejado e forrar bem o chão com jornal.



Depois é só escolher o uso preferido e curtir o charme da estante!


na cozinha

livros e mais livros